
O caso do Boise se tornou um dos mais emblemáticos da crise de manutenção enfrentada pela força submarina americana. Mesmo sendo um dos submarinos mais jovens da sua classe, a embarcação ficou presa por anos em filas de revisão, perdeu a certificação de mergulho em 2017 e acabou virando símbolo do gargalo industrial que afeta a prontidão naval dos Estados Unidos.
A Marinha confirmou na sexta-feira que vai abandonar a recuperação do submarino e redirecionar recursos para projetos considerados mais estratégicos, como a construção de novos submarinos das classes Virginia e Columbia, além da manutenção de unidades com maior potencial de permanência na frota.
O USS Boise, atualmente em dique seco no estaleiro HII Newport News Shipbuilding, na Virgínia, estava previsto para passar por uma revisão regular desde o ano fiscal de 2016. No entanto, a embarcação permaneceu durante anos aguardando espaço no Norfolk Naval Shipyard, em um processo que expôs a lentidão e a sobrecarga da infraestrutura de manutenção naval dos EUA.
Depois de longos períodos parado no cais, o submarino foi transferido para o setor privado. Rebocado para Newport News em 2018, voltou para Norfolk e retornou novamente a Newport News em 2020. Ainda assim, o programa seguiu emperrado até que, em 2024, a Marinha assinou um contrato de US$ 1,2 bilhão com a HII para finalmente executar a revisão. Somados outros investimentos anteriores, o valor aplicado no Boise chegou a cerca de US$ 1,6 bilhão.
Mesmo com esse volume de recursos já comprometido, a conclusão da Marinha foi direta: o custo de recuperar o submarino não compensava mais. Após 11 anos de inatividade, o entendimento foi de que manter o programa consumiria mão de obra e orçamento que poderiam gerar retorno maior em outras plataformas.
Em comunicado, o chefe de Operações Navais dos EUA, almirante Daryl Caudle, afirmou que a decisão permitirá realocar trabalhadores altamente qualificados para prioridades centrais da capacidade submarina americana. Segundo ele, o foco agora é acelerar a entrega de novos submarinos e melhorar a prontidão da frota atual.
A Marinha também informou que o dinheiro e o pessoal associados à revisão do Boise serão redirecionados para outras prioridades do serviço, reforçando a capacidade submarina dos Estados Unidos em prazo mais útil.
A HII declarou que trabalhará com a Marinha para implementar a decisão de forma eficiente e sem impacto sobre sua força de trabalho. Segundo a empresa, os profissionais ligados ao USS Boise deverão ser realocados para outros trabalhos em andamento no estaleiro de Newport News.
O Boise virou um retrato público do atraso acumulado nos quatro estaleiros públicos da Marinha americana, que priorizam submarinos lançadores de mísseis balísticos, porta-aviões e, apenas depois, submarinos de ataque. Esse modelo contribuiu para ampliar o congestionamento justamente em uma das áreas mais sensíveis da força naval dos EUA.
Um relatório do Congressional Budget Office já havia apontado que atrasos em revisões reduzem diretamente a disponibilidade da frota. Em muitos casos, submarinos saem da manutenção meses depois do previsto, o que afeta desdobramentos, encurta missões e reduz o número de embarcações disponíveis para operar no mar.
Analistas avaliam que a decisão de encerrar o ciclo do USS Boise mostra que a Marinha dos EUA tenta preservar capacidade real de combate em vez de continuar consumindo recursos em uma plataforma cujo retorno operacional se tornou cada vez mais improvável.
Na prática, a saída do Boise representa mais do que a aposentadoria de um submarino. Ela escancara as limitações da base industrial naval americana e reforça a pressão para que os Estados Unidos consigam sustentar, ao mesmo tempo, a construção de novos meios e a recuperação da prontidão da sua frota submarina.
Fonte e imagens: usni.org | DVIDS








